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Cérebros pensantes x cérebros anestesiados - Plinio Teixeira Junior

Domingo, 07 de novembro de 2010 às 08h57 / Última atualização: 10 de novembro de 2010 às 15h42

Plínio Teixeira Jr

Nem haveria necessidade, mas o presidente Lula acabou oferecendo ontem à Nação uma nova demonstração pública do seu incansável esforço para passar à posteridade como um dos mais notáveis caras de pau da vida republicana brasileira. Na primeira entrevista após a vitória de sua pupila Dilma Rousseff, e ao lado da própria, o presidente que passou os últimos oito anos travando uma luta retórica quase alucinada na tentativa de reescrever a História e vender como “malditas” as heranças benditas recebidas de seu antecessor, como a derrubada da inflação, a estabilização econômica e as mudanças estruturais que abriram caminho à modernização do Brasil, mais uma vez escamoteou e distorceu deliberadamente os fatos em benefício próprio ao descrever o papel que a oposição teria desempenhado durante o seu governo e o que espera que ela venha a desempenhar durante o mandato daquela que irá sucedê-lo. Já aí fica evidenciada uma nova demonstração do desapreço incorrigível de Lula ao papel da oposição e ao próprio jogo democrático. Não cabe ao presidente da República pautar ou tentar pautar a agenda da oposição, ao menos não de uma oposição digna deste nome.

Mas vamos ao primeiro trecho da fala presidencial e em seguida continuo comentando. “O que eu queria pedir à oposição é que, a partir do dia 1º de janeiro, contra mim não tem problema, podem continuar raivosos, podem continuar do jeito que sempre foram, mas, a partir do dia 1º de janeiro, que eles olhassem um pouco mais o Brasil; que eles torcessem para que o Brasil desse certo; que eles ajudassem o Brasil a dar certo; que, cada vez que tome uma atitude, ao invés de prejudicar o presidente, eles prejudiquem a parte mais pobre da população que precisa do governo e que precisa das políticas públicas do governo. Então eu espero, eu não vou falar aqui em unidade nacional, porque essa é uma palavra já queimada, já mal usada, mas eu queria apenas pedir a compreensão, é que, dentro do Congresso Nacional, a nossa oposição não faça contra a Dilma a política que fez comigo, a política do estômago, a política, eu diria, da vingança, a política do ‘trabalhar para não dar certo’. Eu acho que a oposição tem um outro papel, e ela pode fazer isso, até porque a oposição governa estados importantes da federação, e sabe que a relação institucional entre estados e o governo federal tem que ser a mais harmoniosa possível porque senão todos perdem“

Pode existir alegação mais raivosa, covarde e politicamente oportunista do que tentar convencer alguém de que a oposição passou os últimos oito anos torcendo contra o Brasil e que suas atitudes acabaram prejudicando a parte mais pobre da população? E como se não bastasse, ainda fez questão de deixar uma ameaça velada aos governadores eleitos pela oposição no último domingo ao afirmar que todos poderão perder se não se comportarem direitinho, ou seja, se não se ajustarem dentro do conceito presidencial de relação institucional entre estados e o governo federal. Será ele ainda o presidente em 1º de janeiro?

Mais um trecho da fala de Lula: “Eu não posso dizer como é que vai ser a oposição. Aí já seria demais, né? Na minha opinião, em primeiro lugar, a oposição tem de continuar oposição; não pode perder a característica de oposição. Agora, tem de saber diferenciar o que é o interesse nacional, que envolve o povo brasileiro, e o que é que é a política partidária. Eu não esqueço nunca que, por conta disso, essas pessoas tiraram R$ 40 bilhões anuais, que se formos levar em conta o mandato inteiro, dá mais de R$ 160 bilhões anuais da saúde. E todo mundo sabe, qualquer prefeito, qualquer governador, sabe que é preciso ter dinheiro para a saúde, se a gente quiser dar um atendimento de qualidade, se a gente quiser melhorar a vida do povo brasileiro.”

Claro que o presidente se referia neste trecho à derrubada da CPMF, na versão dele uma grande vilania cometida pelos partidos de oposição contra a Saúde do povo brasileiro ao inviabilizar que mais de R$ 160 milhões anuais fossem despejados em recursos nessa área. Verdade 01: qualquer pessoa que se disponha a voltar um pouco no tempo e lançar um olhar honesto sobre os embates que se travaram em 2007 em torno da prorrogação do chamado imposto do cheque não terá a menor dificuldade em perceber que, apesar de ter a maioria, o próprio governo não se mobilizou como deveria para a aprovação da proposta, tentando dividir o ônus com a oposição, como certamente o fará no futuro. Verdade 02: ao tentar rotular a oposição de inimiga da Saúde e dos pobres, Lula convenientemente se esquece que a CPMF só acabou barrada com a ajuda dos votos contrários à medida vindos de integrantes da base aliada do governo, já que os oposicionistas não contavam com votos suficientes para isso. Também se esquece, em sua desonestidade retórica, que seu governo contou durante cinco anos com a bolada do imposto do cheque, e que nesse período, a Saúde no país, em vez de melhorar, piorou. A menos que ele queira nos convencer de que os enormes descalabros existentes nessa área começaram a partir de 2008. E é claro que a conveniente amnésia presidencial também nunca o fará lembrar de que o seu PT voltou contra a CPMF nos governos Itamar Franco e FHC.

Não fosse o aguçado gosto desenvolvido ao longo dos anos de poder de tentar distorcer a realidade conforme as conveniências de momento, e Lula, ao invés de buscar diminuir e desqualificar o papel da oposição estaria a agradecer todos os dias a felicidade de ter convivido durante oito anos com uma oposição que, ao contrário do que com toda certeza faria o seu PT nas mesmas condições de temperatura e pressão políticas, não tentou tocar fogo ao país ou patrocinar nada parecido a um “FORA LULA” durante a eclosão do maior e pior escândalo político desde a redemocratização do país, o do mensalão, em 2005. Mesmo depois de ficar mais do que evidenciado que o presidente havia sim sido avisado do esquema de compra de votos de parlamentares em troca da aprovação de projetos do governo na Câmara, desmascarando por completo o discurso do “eu nada vi”, “eu nada sabia” de Lula, os partidos de oposição não realizaram qualquer esforço verdadeiro ou concentrado para furar a blindagem que se formou para protegê-lo das implicações do caso. Se isso for agir com espírito vingativo, como diz o presidente, que toda a vingança que alguém por ventura um dia queira despejar contra mim seja nos mesmos moldes e padrões dos utilizados pela oposição em relação a Lula.

Apenas como comparação: alguém que ocupa a presidência de honra de um partido que um dia, numa das mais deslavadas demonstrações de oportunismo político da história recente do país tentou patrocinar um aí sim vingativo e golpista “FORA FHC”, não reúne credenciais para apontar espírito de vingança em qualquer ser vivente do planeta. Rememorando: Em janeiro de 1999, mal iniciado o segundo mandato de FHC, o hoje governador eleito do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, em nome do PT, exigiu a saída de FHC do poder e a convocação de uma Constituinte, falando em lucros exagerados dos bancos graças a “informações privilegiadas” que teriam sido vazadas pelo governo (lucros que, diga-se, foram dinheiro de pinga se comparados ao que os bancos lucraram nesse país durante a era Lula).

Por fim, brinca com a inteligência da parcela de cidadãos pensantes desse país e com a própria democracia brasileira o presidente de honra de um partido que um dia votou contra o Plano Real, contra a Lei de Responsabilidade Fiscal, contra a própria última carta constitucional e tantos outros projetos que ajudaram o Brasil a avançar nos últimos anos no plano social, democrático e institucional e que hoje, no crepúsculo de seu mandato presidencial, continua a atirar pedras contra os adversários, tratados como inimigos a serem exterminados (lembram do discurso durante a campanha em relação ao DEM?) para que se abra o caminho para a construção da única verdade incontestável que a sua cabeça entorpecida pela popularidade consegue conceber: ele próprio. Triste, mas enquanto existirem cabeças pensantes e críticas Brasil afora, a verdade única não prevalecerá, apesar dos milhões de cérebros que preferiram passar os últimos oito anos anestesiados pelo discurso populista e falacioso do “Nunca antes na história deste país...”
 



Comentários

  1. Carlos Norberto Ozilieri

    Eu gostria que voce me explicasse apenas uma coisa:
    Porque o Lula tem mais de 90% de aprovação do povo brasileiro?
    Voce não acha um indice estupidamente alto, chegando quase a unanimidade?
    Será que isso não justifica essa raiva toda que vc tem do maior presidente que o Brasil já teve?

  2. Costa

    Enquanto haver 90% de alienados políticos nesse país tiririca, esses índices, permaneceram altos.

    Os ardilosos defensores dos PeTralhas, ou tem cargo no governo, ou sonha em tê-lo.

    Sou servidor de uma prefeitura comandada pelo PT e conheço por dentro o mar de lama. Sou do estado natal da coisa e nem por isso sou abestado. Se fosse aqui descrever os absurdos cometidos por eles esse espaço seria insuficiente.

    Te digo uma coisa, quem acredita na ética de LuLLA, dos seus aliados e comparsas, deve acreditar em duendes.

    Cai na real, vai ler, se informar pra não escrever besteira.

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