Segunda, 25 de julho de 2011 às 20h54 / Última atualização: 28 de julho de 2011 às 08h31
José Henrique Teixeira
Eu fumei dois carros! É verdade. Faz alguns dias, num noticiário da TV vi a informação de que uma pessoa que fuma por cerca de 20 anos terá ao longo desse tempo dispendido com a dependência o equivalente ao valor de um carro popular. Eu, que faz um ano e pouco que deixei de utilizar o tabaco, fumei por mais de 40 anos. Para ser exato, por 42 anos. Então... fumei dois carros.
Mas o que me anima é saber que mais e mais pessoas como eu, que fumaram um, dois ou três carros ao longo da vida, ou que poderiam iniciar agora essa maléfica dependência, estão fora. Os números apontam um redução à metade do número de fumantes no Brasil de 1989 para cá. Naquele ano eram 34,8% da população os fumantes. Hoje, são 15,1%. Menos da metade.
Acredito que muitos dos jovens de agora não entraram no tabagismo porque não tiveram, ao contrário do que acontecia no meu tempo de juventude, a massificante propaganda dos cigarros a assediá-los. A televisão nos dizia, a cada intervalo dos nossos programas favoritos, em qualquer horário, que “fumar era um sucesso”. Ela nos mostrava homens jovens, bem situados na vida, com seus carrões ou seus iates, dando gostosas tragadas nos seus cigarros, sempre rodeados de belas mulheres. Como resistir a esse apelo?
Também, naquele tempo, ninguém falava que o cigarro tinha um sem número de agentes tóxicos e cancerígenos. Só nos era falado do prazer de fumar. Só nos interessava saber que um cigarro entre os dedos ou à boca era sinônimo de masculinidade (era raro as mulheres que fumavam e se o fizessem em público ficavam mal vistas). Fumar era também sinal de emancipação em relação a tutela paterna.
Por acreditar que dava prazer, por crer que fumar nos tornava mais homens que os outros e , ainda, para demonstrar que o nosso pai não mandava na gente, era que saímos às ruas com o cigarro à boca, soltando baforadas de fumaça por todo lado.
E assim foi. Ninguém proibia de fumar em recintos fechados e locais de grande afluência de público. Imagine o absurdo alguém querer proibir você de fumar num restaurante após almoçar e saborear um gostoso café. O vizinho de mesa que se dane! Aliás, ele não ira reclamar porque, ou também fumava, ou sabia que não ia adiantar nada.
No tempo do colégio, nós todos adolescentes, não havia ninguém que se importava com o professor que fumava enquanto dava aula. Aliás, teve um deles que permitia que nós fumássemos na sala, em escola pública. Podia, desde que fosse aceso só um cigarro por vez, que passava de mão em mão. Imagine se todos os fumantes da classe resolvessem fumar ao mesmo tempo!
De um maço de cigarros por semana, no início, a dependência foi avançando até chegar a um maço por dia, depois mais que isso. E lembrar que tudo começou quando, repetente da terceira série do ginásio, fiquei de exame de matemática e estava nervoso antes da prova, com medo de repetir outra vez. Um colega ofereceu um cigarro, dizendo que acalmava. Passei de ano. Então, o cigarro foi bom.
Me irritava na televisão as campanhas anti-tabagismo. Dizia eu que faria a anti-campanha e sairia à rua com mais fumantes com faixas e cartazes dizendo “Parem de respirar! Deixem eu fumar em paz!”.
Isso tudo durou 42 anos, até a consulta ao cardiologista e o exame de cateterismo.
O problema é que agora, para recuperar os dois carros que eu fumei, teria que viver mais 42 anos. Não vai dar. Vou sair desta para outra no prejuízo. Aliás, num enorme prejuízo e até antes do que seria natural. A única compensação nisso tudo é que, mesmo tendo fumado ao longo de boa parte da vida, os meus dois filhos, um de 26 e outro de 23 anos, não fumam. Eles irão recuperar por mim os dois carros que fumei. Mas, sobretudo, eles vão viver melhor, com mais saúde.
José Henrique Teixeira é jornalista.
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Jornalista responsável: José Henrique Teixeira MTb 20.061
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